Tem que ser hoje
Às vezes me vejo um tanto bisbilhoteiro na vida dos meus amigos, não é por nada, não, é para saber deles e, quem sabe, ajudá-los. Ainda ontem, conversava com um amigo de algum tempo, perguntei-lhe pela idade, 48 anos. Perguntei-lhe se tinha Plano B profissional, isto é, uma atividade que o possa socorrer sem sobressaltos se houver algum problema sério no seu trabalho de hoje. Disse-me que não, que não tinha pensando nisso “ainda”…
Fui adiante: – Tens poupança,então? Também não tem poupança, isto é, se for demitido ou tiver alguma séria encrenca existencial vai viver como, do quê? Sempre digo aos meus amigos, e digo mais forte ainda nas minhas palestras para os jovens em sala de aula, que o futuro se pensa hoje, o futuro é hoje.
A pedra fundamental do bom futuro é lançada, tem que ser hoje. Desde a primeira “mesada” dada pelos pais tem que se guardar alguma coisa para o futuro. Deixar para mais tarde é um risco formidável. A pessoa vai envelhecendo, os entusiasmos já não são os mesmos, as dificuldades crescem e perder o ânimo é muito fácil. Quando o sujeito acorda está de bengala, dão benção às crianças…
E sempre me pergunto de quem será o pior futuro dentre os que nele não pensaram enquanto jovens, dos homens ou das mulheres? Difícil a resposta? Arrisco, dos homens. Os homens vão envelhecendo e vão ficando uns plastas dependentes, salvo, claro, as exceções, raras como dinossauros ali na praça…
Garota , pense no futuro agora, mas não o pense pelas vias do casamento, não sejas burra, não percas tempo, casamento não é emprego nem está durando muito além da lua-de-mel. Não sejas tonta, estuda, qualifica-te para um trabalho, poupa, torna-te financeiramente independente e aí , sim, podes pensar no que quiser, até em casar. Antes não.
Mas é claro que o conselho vale para o garotão que pensa que a vida é só balada, som alto no carro, como um retardado, e parvoíces em sala de aula. Só os trouxas agem assim, os espertos, os verdadeiramente “malandros” pensam no futuro, e o pensam dentro da lei, poupam, investem e esperam tranqüilos pelo futuro.
Deus me livre de saber que o leitor de agora, e assim a leitora, não tem nada no banco, não tem Plano B e já passou dos 40… Deus me livre.
SOCORRO
Como é que podemos ser alguma coisa no mapa das nações se estamos lá atrás, empurrando o bonde da História, em 88º lugar no ranking de Educação da Unesco? E nada está sendo feito, nada. Promessas, bolsa disto, daquilo, mas investimento que é bom, nada. Professores mal pagos, mal treinados, escolas caindo em ruínas, evasão em massa, falência… Como é que alguém tem o topete de dizer que estamos entre os oito maiores do mundo? Socorro, camisa-de-força!
COLÍRIO
Um colírio, por favor, rápido; acho que não estou enxergando bem… Esfrego os olhos e a manchete da Folha teima em ficar nas minhas retinas. Veja – “Redes de livrarias anunciam expansão”. Livrarias em expansão, no Brasil? Jesus, não acredito. Será mesmo, livrarias em expansão? Não serão lojas de abadás?
BASTANTE
Uma senhora, na faixa dos 80 anos, diz-me que ter menos, menos posses, significa ter mais liberdade, ser livre. Eu a entendi, mas é difícil de entender… Levada ao pé da letra essa filosofia, o mendigo seria o sujeito mais feliz da cidade, não tem posses, nada. Penso que a liberdade, ou a felicidade, é mais fácil quando temos o bastante, isto é, o que nos basta, o que nos é suficiente. O difícil é saber do que precisamos para que possamos dizer – tenho o bastante, o que me basta, tenho o que me é suficiente. O que você acha?
Fizeste a tua parte?
Educaste bem os teus filhos, deste a eles bons ensinamentos sobre decência e boa ética quando crianças? Então, deita e descansa, fizeste a tua parte e a fizeste bem. Agora é com eles.
Estou cansado de ouvir pais se queixando dos filhos e se perguntando onde erraram. Nem sempre os pais erram. A boa educação caseira é como a genética, tem muita força na saúde, mas não tem todas as forças. Às vezes, os pais vão além do que podem pelos filhos e, todavia, mais tarde, desapontam-se, os filhos os decepcionam.
Ocorre que os seres humanos não são matemáticos a produzir resultados exatos, há desvios “padrões” dentro de todos nós, daí as frustrações que passamos aos nossos pais e, não raro, a nós mesmos.
Os pais que fizeram do melhor pelos filhos não devem perder o sono, sei que perdem, mas não devem. Não devem, pelo menos, carregar a cruz da culpa. Há filhos que não deviam ter nascidos e outros que parecem ter nascido valendo por vários, de tão bons que saem. E isso ainda que os pais, muitas vezes, nem os mereçam.
Enfim, a equação humana não é exata. Quase sempre, é verdade, a fruta cai logo abaixo do pé, essa é quase sempre a regra. Mas, como já disse, muitas vezes os pais não prestam e os filhos saem ótimas pessoas. Outras tantas, os pais são magníficos e os filhos umas decepções. É da vida. Mas se você, pai, se você, mãe, de fato fizeram o melhor pelos filhos e não deu certo, relaxem e deixem com a vida ou com o destino o destino dos filhos… Mais não lhes é possível fazer. Você, como pai ou como mãe, fez a sua parte…
TROUXAS
Essa é boa. Ouça, está nos jornais. – “A China implantará uma política de aumentos salariais regulares e de reajustes do salário mínimo para enfrentar de maneira “urgente” o problema da má distribuição de renda e o baixo consumo no país”. Sabes como é que se lê essa notícia na verdade? Assim: – Os trouxas se deram conta de que o esquerdismo comunista não leva a nada, e que ajustar salários e qualificar pessoas é o caminho, o caminho da democracia capitalista”. Trouxas.
CARNAVAL
O guri ficou “horas” rodando o pandeiro sobre o dedo indicador, sorria e não se cansava de se exibir diante das câmeras. Fiquei a imaginar do que não seria capaz na vida aquele guri folheando páginas e páginas de um livro…
FARSA
Leio nos jornais que Brasília quer acabar com a miséria no país… – Ah, que interessante, estamos todos interessados. Só gostaria de saber como é que os “iluminados” vão acabar com a miséria se não investem pesadamente em educação. Ou há algum plano nacional de educação em andamento? Ou será que o Tiririca que saiu fez alguma coisa e não ficamos sabendo? Sem educação, sem investimentos pesados por, no mínimo, 30 anos, nada feito, “iluminados”.