Lábios e corações
Não tendo o que fazer, liguei a tevê. Liguei nos canais pagos e fui indo, nada que prestasse. De repente, parei num canal que dava um programa de calouros, um programa da Sony Entertainment Television, o American Idol. Achei-o e interessante e fiquei por ali. Valeu a pena. Em dado momento, uma garota foi chamada para cantar, uma caloura. Nem bem começou a cantar e o apresentar levantou a mão, pare, pare, pare! – “Não deu, garota, você não canta bem, pode sair por ali, obrigado!”
A moça não se conteve. Pediu uma nova chance, queria cantar outra música. O apresentador disse-lhe que não, não tinha tempo e que havia uma fila de candidatos esperando pela vez de cantar.
A moça insistiu, quase caiu de joelhos pedindo nova chance. E nesse momento, ela fez uma frase que amoleceu o apresentador. Ela disse que queria uma nova chance e que aí, sim, iria cantar uma música em que ela acreditava…
O apresentador não entendeu muito bem. – Quer dizer que você cantou uma música de que não gostava, foi isso? Foi, disse a moça. – E por que você cantou uma música de que não gostava?
- Ah, eu quis cantar uma canção da moda, uma canção comercial, pensei que ia agradar…
Dito isto,o apresentador deu à moça a nova chance. E ela cantou divinamente, está até agora sendo aplaudida. Sucesso absoluto.
Por que contei essa história? Porque eu a ensinei durante muito tempo aos meus alunos de oratória: nunca fale sobre o que você não conhece e nunca fale sobre o que você não acredita, e muito menos no que não possa ajudar a quem o ouve. Aí está o segredo da oratória impressiva e persuasiva. E aí está a base do sucesso dos grandes e eternos cantores de todos os tempos. Eles sempre cantaram com o coração, nunca com os lábios. Os lábios fazem o eco do que vem do coração, tanto para quem canta como para quem fala em público.
Os “verdadeiros” cantam e falam com o coração, os “comerciantes” falam e cantam com os lábios. A escolha é sua, de cada um… Aliás, vale para tudo na vida, o que não é feito com o coração não passa de um arremedo, seja do que for, seja qual for a intenção…
COITADA
Li na Veja que algumas garotas, mulherões até, vivem vasculhando a vida dos namorados ou de suas ex-namoradas para saber o que estão e andam fazendo… A pesquisa é via internet, claro. A internet é hoje o inferno dos levianos. E a grande ilusão “afetiva” dos ingênuos…
MACONHA
Num programa de tevê bem rasteiro, bah, rasteiríssimo, discutiam a descriminalização da maconha. Até o Sr. FHC participava da discussão. Que queda, heim, presidente? Por que a produção da baixaria não colocou na pauta a discussão sobre o nível de leitura e compreensão de textos de parte do pessoal do “auditório”?
MODERNOS
Falsos modernos da pedagogia pregam azedumes contra a saliva e o giz em sala de aula. Dizem que os jovens de hoje são avessos a isso, que a onda é computacional, virtual… Trouxas. Nada ensina mais e melhor que saliva e giz, saliva é o conhecimento pulsando nos lábios do professor, é o vigor da presença física, é o exemplo humano que fica… E giz é o mais eterno dos produtores de textos, é o conhecimento “grafitado” na parede da lousa. Paspalhos.
REPETIÇÃO
Que beleza quando você descobre amigos que não sabia que eram seus amigos, e fica sabendo dos muitos “amigos” que você não sabia que não eram seus amigos… Beleza! Faz bem à vida.
Vai uma inveja aí?
A conversa rolava na sala, nada de importante, aliás, nessas conversas caseiras, de fato, é raro que alguém erga a voz com algum assunto que valha a pena. Mas de repente, alguém falou que fulano de tal era muito invejoso.
Pronto, foi o que bastou. A conversa pegou fogo, mas pegou fogo pelo lado errado. Uma senhora, religiosa, foi a primeira a dizer que a inveja é pecado, pecado feio, dos brabos. Não me meti, não me valia a pena….
Mas fiquei pensando com meus botões, que eram seis, os da camisa. Será mesmo que a inveja é sempre um pecado? Claro que não, o que faz da inveja um pecado é a inveja ruim, a que deseja o mal do invejado, desejar que o invejado caia da escada…
Quando, todavia, a inveja nos faz pensar que estamos num degrau debaixo e podemos chegar a degraus mais acima, tudo a partir de desejar o que o outro, ele ou ela, tem, aí não há inveja, ou se há é inveja da boa, a inveja que nos leva a voar.
Não sou original no que digo, Machado de Assis costumava dizer que há dois tipos de inveja, a que faz voar e a que faz rastejar. Não é preciso dizer mais ou muito, tudo muito claro.
Olhar para quem tem mais ou trabalhou mais e chegou às bem-aventuranças das realizações, e desejar o mesmo pode até ser chamado de inveja, mas é boa e santa inveja. Quem não inveja, quem não olha para os bons exemplos e deseja ter como eles, segui-los, nunca será nada na vida. As vocações nascem das imitações, que antes foram desejos, ou invejas.
Pecado é não agir, é ficar parado e se queixando da vida, dizer-se sem talento, sem sorte, isso sim, traz um magnífico azar. Já a boa inveja dá-nos força para as lutas e abre caminho para as realizações. Às invejas!
ROUPAS
Há quem pense que numa entrevista de emprego ir vestido de modo “caseiro” é boa dica. É péssima. Quem procura por emprego está oferecendo um “produto” ao mercado empregador. E produtos precisam ser bem cuidados na “embalagem”. Que triste precisar dizer isso para sujeitos metidos, que se acham. Lugar de desmazelados é no Bloco dos Sujos, e parece que o bloco não tem mais vagas…
VERGONHA
Um advogado em São Paulo, imagino que um sujeito desses que se acham, tentou entrar num restaurante de qualidade usando sandálias, sem meias. Foi barrado. O restaurante não admite bermudas, bonés e sandálias. – Que coisa linda! – Ah, mas as minhas sandálias são de couro, caras… E daí? São inadequadas para um restaurante, ouviste bem, “doutor”?
ELES E ELAS
O que mais vejo nos shoppings são mulheres bem arrumadinhas, cuidadas mesmo, e camaradas ao lado delas de bermuda, camisetão, usando chinelos ou tênis sem meias… E elas aceitam. Esses caras são daqueles tipos que quando vão ao banheiro em casa deixam a porta escancarada. Bem feito para elas, bem feito!
Pensamento mágico
O pensamento mágico pode matar. Claro, o pensamento mágico também pode nos dar vida, prazeres. E o que é o pensamento mágico? É acreditar em “verdades” de aparência, verdades criadas para o autoengano. E verdades de aparência, você sabe. São equívocos, para não dizer mentiras…
Uma frase muito usada por pessoas que se expõem a riscos, como, por exemplo, os que consomem drogas, é dizer que param quando quiserem, que não há problemas, que posso me cuidar, sei o que estou fazendo… E por aí. Tudo pensamento mágico.
Acabo de ler sobre um risco a que pessoas levianas se expõem e que do risco se defendem dizendo que não é bem assim… O tal risco vem do sol. E sobre esse risco, uma afirmação médica, séria.
Diz um médico, sujeito competente e credenciado em São Paulo, que – “O bronzeamento é uma defesa contra as radiações solares, que estimulam o organismo a produzir melanina, reduzindo a penetração das radiações…” Dito de outro modo, o escurecimento da pele é uma defesa “desesperada” do corpo para se proteger contra os danos solares. A pele “escurecida” pelo sol é uma pele doente. Daí ao câncer é um pulo… Um pulo que vai aparecer anos mais tarde.
E adianta dizer, adianta dizer que uma pessoa bronzeada é uma pessoa doente? Claro que não, os levianos acham-se bonitos “queimados”, e se defendem dizendo que não é bem assim, que afinal não se queimam tanto etc etc. Coitados. E alguns chegam a pensar que o protetor solar os protege, que estão a salvo.
Conheci várias pessoas que diziam que paravam de beber ou de fumar quando bem entendiam, que tinham controle sobre seus vícios. Estão todas mortas… O pensamento mágico mata.
NOIVOS
Faz alguns anos, um padre deixou de oficiar casamentos em Belo Horizonte, achava-se um palhaço diante das noivas… O atraso contumaz delas o aborreceu definitivamente. Agora, um outro padre, no Paraná, quer cobrar multa de R$ 500 dos noivos pelo atraso sem razões aceitáveis. É isso, dou força. Que os irresponsáveis aprendam já na igreja que casamento é coisa séria, irresponsáveis.
ALIÁS
Nas minhas aulas, seu fosse professor, não aceitaria marmanjos e marmanjas chegando depois do início das aulas. De jeitinho nenhum. – Ah, mas o ônibus atrasou, o trânsito estava incrível… Tudo desculpa de desmazelados da disciplina. Rua.
PRÊMIOS
Bons alunos têm que ser distinguidos em sala de aula, apreciados, aplaudidos, premiados. – Ah, mas isso traumatiza os que não tiram boas notas! – Ah, é? Que os vadios aprendam a estudar, a dar valor ao esforço dos pais, a aproveitar o tempo na vida.